13 de abril de 2015

Alguns motivos para não voltar


"o procedimento de fazer essa viagem
me leva ao lugar me leva ao 
ter lugar
na leitura do outro
 acabamos por chegar em nós mesmos" 

Marília Garcia em "Blind light"


Não sei onde Anelise Freitas está agora. Moramos na mesma cidade, no mesmo bairro, quase na mesma rua, mas ela pode estar em qualquer lugar. Ainda assim, é a voz dela que ouço agora, tentando me convencer que “é fácil falar das coisas / não é fácil sentir universos”. Mas talvez não seja assim tão fácil assim falar das coisas e prefiro me abster de maiores considerações sobre o universo. O que realmente importa é: li Pode ser que eu morra na volta (Edições Macondo, 2015) pelo menos quatro vezes e concluí que Anelise me deu duas escolhas: percorrer pelo avesso um caminho narrativo absurdo ou ser abandonada em uma impossível trifurcação poética. Três poemas, uma canção em três tempos ou três maneiras de voltar? Fico com a última. Mas não é a direção que define a intenção do percurso, porque alguém já disse que estamos sempre voltando para casa. Então talvez a questão não seja para onde e nem como voltar, mas o motivo da volta.

Existem ainda outras escolhas: ao escrever sobre a plaquete de Anelise, posso apontar e tentar analisar, por exemplo, aquilo que prefiro chamar de “dissonância” que, à primeira vista, seriam essas outras vozes, em outras frequências e idiomas, que atravessam os textos. Ou posso contar que nunca estudei espanhol, mas gosto de pensar na existência dos falsos cognatos puros e da ideia de que logo ali existem pessoas comprando berros e desabrochando camisas. É possível, talvez, falar em “polifonia”, mas esse conceito, como tantos outros, anda meio fora de moda, ao contrário do fenômeno, que está sempre no mundo e independe de definição. Ninguém precisa aceitar ou sequer entender o fenômeno, ele simplesmente existe, e um dia vai entrar no seu quarto, cutucar seu ombro e dizer “oi”. Os conceitos pesam, as palavras pesam e a leveza não é o contrário da densidade, é apenas mais uma maneira de fluir através do tempo. Ou de voltar.

Posso falar ainda da tensão entre prosa e poesia que, segundo Florencia Garramuño, evidenciaria em “alguns poemas muito recentes (...) uma forte pulsão narrativa e uma decidida vontade de transgredir os limites do lírico”, o que talvez seja uma característica da plaquete de Anelise. Digo talvez porque a própria autoreflexividade do texto em alguns momentos nos dá outras coordenadas: “A minha fala sem ritmo / atravessada pelo ritmo da prosódia”; “una casa no es una casa / es una palabra". Narratividade? Sim, pode ser. Mas prefiro dizer que vejo uma tensão não propriamente entre prosa e poesia, mas entre poesia e oralidade e que, vindo de Anelise, isso faz todo sentido. E aqui posso começar a pensar em Platão e mousiké. Inserir uma citação d’A República e falar da ancestralidade oral da poesia. Ou não.

Mas eu posso também me permitir escrever um texto que não seja uma resenha, não seja uma análise, não seja um artigo, enfim. Um texto que não seja o que um texto como esse deveria ser. E farei isso, não só porque, em algum ponto, uma voz emerge de Pode ser que eu morra na volta e me avisa: “Isto não é um poema”. Ok, talvez seja um pouco por isso, mas também porque ali, parada no lugar impossível em que Anelise me deixou ao fim de cada uma das leituras, pensei em qual seria o meu motivo para voltar. E escrever uma resenha não é um deles. Por isso ainda estou aqui. E é bem possível que Anelise também não volte mais.

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